A coleção do jornal Boletim Mensal da Federação Circense é obra rara, não só pela sua longevidade, mais de 80 anos, mas principalmente pela diversidade, variedade e riqueza de informações nela contidas sobre o circo brasileiro.

Conforme editorial do seu primeiro número, 20 de maio de 1925, “ o boletim foi a melhor forma encontrada para por os srs. associados sempre ao corrente das principaes resoluções da Directoria Central, localizada a centenas de kilometros da maior parte das Delegacias, também à distância considerável uma das outras. (…) O Boletim trará ainda a vantagem de crear e manter uma verdadeira comunhão de idéias entre os numerosos membros de nossa classe, até hoje tão desunida e menosprezada; pois será lido por mais de oitocentos associados já inscriptos nos livros de matrícula da Federação, deverá ser também remetido aos directores de outros circos (cerca de 20) que ainda não attenderam ao nosso appello, bem como, será pelos senhores Delegados distribuídos a imprensa e as autoridades municpaes e policiaes de toda a cidade onde houver um circo funccionando.”

Acho importante esclarecer como foi que essa coleção chegou às minhas mãos.
Ela pertencia a Francisco Colman, acrobata, barrista, ator, dramaturgo – orgulhava-se principalmente da adaptação que realizara do filme O Signal da Cruz para o circo-teatro – e dirigente da classe circense – foi presidente do Sindicato dos Artistas, São Paulo, na década de 1950, e da Associação Piolin, fundada em 1977, entidade que veio a fundar a Academia Piolin de Artes Circenses (1977-1983) e a dirigir a extinta Casa do Ator, situada na rua de mesmo nome, nº 275, Vila Olímpia, São Paulo, SP, onde hoje funciona a Faculdade Anhembi Morumbi.

Eu o conheci no ano de 1979 na Academia Piolin, onde eu era aprendiz, e ele diretor. Eu estava então com 20 anos, e ele chegando aos 80.

Seu Colmam como nós o chamávamos, só andava de terno. E ternos muito bem cortados. Muito elegante seu Colman. E nos dias frios da capital paulistana, ele colocava, sobre o terno, um casaco preto, de boa lã, que lhe chegava até os joelhos, e o deixava ainda mais elegante, com a aparência de um lord inglês, daqueles que a gente vê nos filmes. No começo ele aparecia freqüentemente, sempre acompanhado de seu secretário, seu Waldemar, que também só vivia de terno. Chegava sempre animado, dava palpites, aplaudia a evolução de um aluno, dava conselhos, contava feitos de sua época de glória e ria muito. Tinha problema sério de audição, quase gritávamos para falar com ele. Os professores da Academia o respeitavam muito, mas os mais gaiatos não se furtavam a fazer gozações com ele. Tinha um que falava alto o que ele queria que o seu Colmam escutasse, tipo: como vai seu Colmam? E num tom mais baixo, dizia algo como: o senhor está bem caduco, heim? Era difícil segurar o riso.

Foi em outubro de 1980, no Parque da Água Branca da cidade de São Paulo, que eu passei a ver seu Colman com outros olhos. Estávamos na Semana da Criança, e havia sido programado um espetáculo dos alunos e professores da Academia Piolin no Circo Romano que se encontrava armado no parque. E minutos antes de começar o espetáculo, o coração do velho circense não segurou a emoção em ver a escola de circo, sonho acalentado por várias gerações de circenses, apresentar-se dentro de um circo super lotado. Ele foi levado para detrás das cortinas e ficou deitado numa cama improvisada no chão, enquanto aguardava o resgate. Nós, os alunos mantivemos distância. Os professores estavam apreenssivos. E a platéia reclamava o atraso: começa, começa, começa!… Enfim, o resgate chegou e levou seu Colman. Alguém convocou uma roda, puxou uma oração, e em seguida, começou o espetáculo. No final, chegou a boa notícia, seu Colman estava bem. Tinha sido só um susto. Mas um susto que mexeu profundamente comigo. Tive talvez, pela primeira vez consciência do momento histórico que vivia: a implantação da primeira escola de circo do Brasil

Foi com seu Colman que descobri que diretor/dirigente/secretário de circo têm sempre a carteira recheada. Então, eu e minhas colegas que éramos extremamente duras, sempre que seu Colmam aparecia, arrumávamos um jeito de levá-lo até o camarim. Lá dentro, fazíamos-lhe cócegas e lhe pedíamos: seu Colman, arruma um dinheirinho pra gente. Ele ria, sacava sua carteira, e rindo dava uma nota para cada uma de nós.

Ele sempre ressaltava a importância do diploma que nós receberíamos no final do curso – que correspondia a montagem de um número. Na época, não dei a menor importância para esse diploma, mas me lembrei dele em 1985, quando fundei a Escola Picolino de Artes do Circo, em Salvador, BA. No ano seguinte, estando em São Paulo, fui até a Casa do Ator para buscar o meu canudo de papel .

Foi triste. Estava muito diferente. Nem terno usava. Morava num quarto de frente, onde outrora devia ter funcionado a secretaria. O cômodo era amplo, mas não aconchegante. Assim que entrei, senti cheiro forte de corpo amanhecido, remédios, urina. Havia uma cama de solteiro encostada à parede, escrivaninha, e o que é mais presente na retina da minha memória: armários de vidro, daqueles que são usados em consultórios médicos e dentários, mas que no caso guardavam objetos do dia a dia: caneca, tinteiro, dentadura.
Num fogareiro elétrico, de uma boca só, ele cozinhava um ovo que quebrara durante o cozimento, espalhando a clara na água fervente. Depois de comer a gema e o que conseguira pescar da clara, pude então explicar-lhe o motivo da minha inesperada visita: o tal diploma. Ele então pegou um pedaço de papel e escreveu de próprio punho, e depois, sem o menor glamour e cerimônia, sem mesmo apertar minha mão, me passou o diploma que tanto me prometera.

Fui ler o que ele tinha escrito, era alguma coisa como: declarou que Verônica Tamaoki se formou na Academia Piolin… No final, a data: dia tal de janeiro de 1886.
Eu disse: seu Colman, nós estamos em 1986!!! Ele não compreendeu. Gritei. Ele então pegou a caneta e no lugar do 8, escreveu o 9.

Antes de ir embora, fui até a administração, localizada na casa central, procurar seu Waldemar. Não tinha ninguém. Da porta, dei uma espiada no corredor dos quartos. Todas as portas estavam fechadas. Saí da casa central e fui para o quintal. De um lado, a casa central, do outro, uma edícula comprida com vários apartamento. Muitas vezes ensaiamos naquele quintal. Já naquela época, havia muitos apartamentos vazios, e eu gostava de entrar neles. Alguns estavam totalmente vazios, em outros havia equipamento de consultório médico e dentário – inclusive prateleiras de vidro como as do quarto do seu Colman. E havia também os que eram habitados. Naquele dia não tive coragem de entrar em nenhum daqueles apartamentos. Mas entrei na sala grande da casa central que outrora devia ter sido o refeitório e também o teatro, já que no fundo havia um pequeno palco. E depois, fui á capela, quase miniatura, que ficava no fundo do terreno.

Saí de lá triste. Pasma. Porque aquela casa não estava vazia? Por que seu Colman parecia ser o único habitante do lugar?

Retornei à Casa dos Artistas em 1991/1992. Quem me abriu a porta foi seu Waldemar, que sempre foi de uma gentileza impar comigo, e a quem também me afeiçoei. Ele permitiu que eu consultasse o acervo particular de seu Colman, que já havia falecido. Fiquei sabendo então que A Casa do Ator havia sido transferida para a Faculdade Anhembi Morumbi.
O cenário estava ainda mais devastado, e entre escombros encontrei a última moradora da Casa dos Artistas, a então octagenária Geni. Filha dos russos Ivan e Tâmara Rundade, especialistas em arte eqüestre – estilo cossaco, e que se casou com Guido, o italiano que introduziu o Globo da Morte no Brasil. Conversamos. Ela lamentou ter perdido seu álbum de fotografias. E me contou, com os olhos cheios d’água, que um dia levara seu álbum para mostrar para uns amigos, e que na volta o esquecera no ônibus. Nunca mais o encontrou, passou a então a ser uma artista sem álbum;

Á véspera da faculdade Anhembi Morumbi tomar posse da Casa do Ator, seu Waldemar, acredito que percebendo que tudo ia pro lixo, me autorizou a levar comigo o que achasse importante. Se fosse hoje, teria encostado um caminhãozinho, mas na época, levei o que coube num táxi. E entre as coisas que separei, trouxe comigo a coleção do Boletim Mensal da Federação Circense. Foi assim que a coleção em minhas mãos.

Continua na próxima edição