artistas circenses
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Canal de comunicação e expressão de Verônica Tamaoki - seus trabalhos, seus projetos, suas dúvidas, seus desejos, seus anseios
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Publicado por admin em 02 Jun 2007 | sob: artistas circenses
Se você deseja que a biblioteca pública da sua cidade ou um centro de referência e pesquisa sobre o circo, receba uma cópia digitalizada (dvd room) da coleção Boletim Mensal Federação Circense (Nº 1 ao 25, e 43, publicados entre 1925 e 1928), responda os dois questionários (pode ser em world ou no próprio corpo do emeio) e envie para pindorama@pindoramacircus.com.br
Questionário 1
1. Nome do requerente
2. Endereço eletrônico do requerente
3. Nome da entidade a ser contemplada
4. Endereço (rua, cep, cidade) da entidade a ser contemplada
5. Breve histórico sobre a entidade indicada
Questionário 2 (Para responder, leia matérias publicadas neste blog)
1. Em que data (dia, mês e ano) foi fundada a Federação Circense?
2. Em que ano a Federação Circense encerrou suas atividades?
3. Quem constituiu a coleção Boletim Mensal da Federação Circense?
4. Qual era o principal objetivo da Federação Circense?
5. Qual a diferença entre delegacias gerais, fixas e ambulantes?
6. Por que se dá com relativa facilidade um salto mortal na região norte do Brasil, principalmente na banhada pelo Equador? (Segundo Raul Olimecha)
7. Por que as igrejas de São Paulo na Semana Santa do ano de 1925 ficaram quase desertas?
8. Quem foi eleito segundo vice-presidente da Federação Circense no ano de 1927? E qual era o nome do seu palhaço?
9. Quais os circos associados à Federação Circense que se encontravam na cidade de São Paulo, em julho de 1925?
10. Qual era o lema da Federação Circense?
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Publicado por admin em 19 Mai 2007 | sob: artistas circenses, circo, associação classe circense
Diretoria Central da Federação eleita em 20 de março de 1925:
Presidente - Capitão Canuto de Oliveira
Vice Presidente - Hypolito Rocha
Primeiro Secretário - José Pinto da Silva
Tesoureiro - Galdino Pinto
Conselho Fiscal - Alcebíades Pereira, Alcides Queirolo e Aristides Pinho
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Diretoria Central eleita em assembléia geral realizada no dia 26 de abril de 1926, no Braz Polytheama, então situado na Av. Celso Garcia, 55, com a presença de 382 associados:
Presidente - Capitão Canuto de Oliveira
Primeiro Vice Presidente - Luiz Olimecha
Segundo Vice Presidente - Galdino Pinto
Terceiro Vice Presidente - Alcides Queirolo
Primeiro Tesouireio - Hypolito Rocha
Segundo Tesoureiro - Vicente Seyssel
Terceiro Tesoureiro - Oscar Pereira
Primeiro Secretário - Francisco Rubens Mira
Segundo Secretário - Raul Olimecha
Terceiro Secretário - Julio Ozon
Conselho Fiscal Consultivo - Aristides Pinheiro, Leopoldo Martinelli, Ferdinando Seyssel, Manoel Ballestero, Paschoal Ciocciola, João Alves, Abelardo Pinto, João Ximenez, Eduardo Temperani, Sebastião Arruda, Salvador Soares, José Serrano, Alcebíades Pereira, José Carlos Queirolo, Carlitos A. Lopes
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Diretoria Central eleita em assembléia geral realizada no dia 4 de maio de 1927, no Braz Polytheama, então situado na Av. Celso Garcia, 55, com a presença de 266 associados:
Presidente - Hypolito Rocha
Primeiro Vice Presidente - Luiz Olimecha
Segundo Vice Presidente - Abelardo Pinto
Terceiro Vice Presidente - João Alves
Primeiro Tesouireio - Oscar Pereira
Segundo Tesoureiro - Vicente Seyssel
Terceiro Tesoureiro - José Pinto da Silva
Primeiro Secretário - Julio Ozon
Segundo Secretário - Eugenio Barbosa
Terceiro Secretário - Francisco Rubens Mira
Conselho Fiscal Consultivo - Rinaldo Giudice, Ferdinando Seyssel, Aristides Pinheiro, Salvador Soares, Carlitos Angel Lopes, Eduardo Temperani, José Serrano Diez, Alcides Queirolo, Ozório Rocha
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Publicado por admin em 08 Mai 2007 | sob: artistas circenses, circo, associação classe circense
O quadro “situação presente dos circos associados” de julho de 1925, publicada na última edição deste blog, não tem a precisão de um recenseamento - recensemaneto que a própria classe reinvidicava na época - mesmo assim serve como referência para avaliarmos a atividade circense desse período no Brasil. Vejamos: o quadro apresenta 49 circos, sendo que nesse mesmo período, o boletim aponta a existência de mais 20 circos que até então não haviam se associado à Federação.
Um outro quadro, infelizmente publicado apenas nos primeiros números do boletim, chamado “Movimento Associativo”, relacionava o número de sócios de cada delegacia, totalizando média de 1200 associados.
E eu pergunto: a partir desses dados é possível fazer uma estimativa de quantos circenses e quantos circos existiam no Brasil?
E hoje, quantos somos? Quando será realizado o recenseamento da classe circense? É viável?
Seguindo, dos 49 circos relacionados, 30 estão localizados no estado de São Paulo, 10 em Minas Gerais, 5 no Rio de Janeiro, e apenas um circo nos estados do Acre, Paraíba, Paraná, e Rio Grande do Sul.
É claro que, num país continental como o nosso e com os meios de comunicação de então, era mais fácil a Federação associar os circos do estado, São Paulo, em que estava sediada. Por outro lado, era para São Paulo que a maioria dos circos se dirigiam, atraídos pela onda verde do café que urbanizava, financiava, industrializava, modernizava São Paulo. Entre 1884 e 1914 entraram em São Paulo cerca de setecentos e cinquenta mil trabalhadores - italianos, espanhõis, , japoneses, sírio libaneses, alemães, entre outros. Uma platéia bastante considerável, que os circos disputavam em históricas “competências”.
“O café estava por cima. O dinheiro corria como água. Nosso circo mudou-se para São Paulo. E iniciamos jornadas pelos centros cafeeiros mais prósperos: Campinas, Ribeirão, Atibaia, Jundiaí…” Benjamim de Oliveira em depoimento ao jornalista Brício de Abreu.
Roger Avanzi, que na época era menino, tem lembranças da dificuldade que o circo do seu pai, o Circo Nerino, encontrava para circular na década de 1920 pelo interior paulista. Em toda cidade, diz ele, havia um circo. O que provocava freqüentemente o encontro de dois circos numa mesma praça, disputando o mesmo público, o que os circenses chamam de “competência”.
Ao mesmo tempo em que esse aglomerado de circos no estado de São Paulo provocou muitas competições, despertou a consciência de classe no seio da classe circense, num período em que os trabalhadores se reuniam para reivindicar seus direitos. Em 1917, a greve geral realizada em São Paulo envolveu 45 mil operários, praticamente todos os trabalhadores. Novas greves aconteceram em 1919 e 1920, e as manifestações populares contra a carestia reuniam verdadeiras multidões nesse período. E havia também o exemplo da revolução soviética de 1917. Tudo isso, acredito, despertou a consciência da classe circense a fundar no dia 20 de março de 1925, a Federação Circense, sob o lema UNIDOS SEREMEOS FORTES
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Publicado por admin em 06 Mai 2007 | sob: artistas circenses, circo, associação classe circense
Segue localização dos circos associados publicado no Boletim Mensal da Federação Circense , nº 3, 20 de julho de 1925
“Situação presente dos circos que fazem parte da Federação”
1. Aimoré - Jaguari
2. Alcibíades - Olympia
3. American Circus - São Carlos
4. Arithusa - São Paulo
5. Belga - São José dos Campos
6. Berlando - Assis
7. Brasco - Santa Bárbara
8. Ceballos - Paraibuna
9. Chicharrão - Muriahé
10. Chileno - Araraquara
11. Colombetti - São Manoel
12. Colyseu - Rio Branco
13. Demosthenes - Campo Grande (Rio)
14. Edson - Botafogo (Rio)
15. Europeu - Estado da Paraíba
16. Flamengo - Capital Federal
17. Francez - Ilha do Governador
18. Frank Soha - Itirapina
19. Guarany - Monte Alegre
20. Irmãos Abreu - São Paulo
21. Irmãos Landa - Viradouro
22. Irmãos Polydoro - Ribeirão Vermelho (Minas)
23. Irmãos Queirolo - São Paulo
24. Irmão Stavanowich - Vargem Grande
25. Jardim Zoológico - Espírito Santo do Pinhal
26. Nelson - Santa Aldeia
27. Nerino - Rio Preto
28. New York - Nova Europa
29. Novo Horizonte - Salto de Itu
30. Olimecha - Bebedouro
31. Olympico - Batatais
32. Orion - Dous Córrego
33. Oriental - Tayuva
34. Paulistano - Palmeiras
35. Polytheama François - Santos
36. Polytherpsia - Itápolis
37. Rio Branco - Fartura
38. Royal - Monte Santo (Minas)
39. Sampaio - Parahyba do Sul
40. Saturnino - Avahy
41. Savala - Palma (Minas)
42. Serrano - Guaxupé
43. Seyssel - Entre Rios
44. Spinelli - Jacarehy
45. Sul de Minas - Igarahy
46. Variedades - Muzambinho
47. Ventura - Leopoldina
48. Vênus - São Geraldo
49. Wasnell - Bocayuva
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Publicado por admin em 02 Mai 2007 | sob: artistas circenses, circo, circenses, acrobacia
Segue artigo de Raul Olimecha, citado na edição anterior deste blog, e publicado no Boletim Mensal da Federação Circense nº 5, 20 de setembro de 1925
“Por que se dá com relativa facilidade um salto mortal na zona do norte, principalmente na banhada pelo Equador?
É notório que a Terra possue duas grandes forças em sentidos diametralmente opostos: atração e repulsão. Nada sai do nosso planeta senão por um deslocamento dessa lei universal. Na linha equatorial, a força de repulsão exerce uma poderosa influência, de modo que o saltador, com um pequeno impulso, sobe facilmente num salto mortal a boa altura, sobrepondo-se entre as duas forças contrárias, que não se vê cá para os lados da zona sulina onde não se tem a influência da linha equatorial, predominando por isso a força de atração da terra. Cremos que é devido a esse fenômeno que a gurizada do norte salta com extrema perícia e agilidade, fazendo por vezes, variedades de salto que levariam à estupefação alguns dos nossos melhores saltadores que ainda não tiveram o ensejo de conhecer as encantadoras plagas do norte.”
Raul Olimecha
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Publicado por admin em 02 Mai 2007 | sob: artistas circenses, circo, história
Na edição passada, contei como foi que a coleção Boletim Mensal da Federação Circense chegou em minhas mãos, em 1991/1992. Hoje vou abordar, tentarei ser breve, o que aconteceu com a coleção desde que ela chegou em minhas mãos.
Num primeiro instante, nas primeiras leituras que fiz, dois artigos me chamaram a atenção:
“Por que se dá com relativa facilidade um salto mortal nas zonas do norte, principalmente as banhadas pelo equador”, de Raul Olimecha, (uma tese maluca para justificar o talento acrobático dos mulatos natos cafusos difusos das regiões do norte do Brasil).
“Uma tradição que está sendo conspurcada. A vida de Christo representada até em circo de cavallinhos”, Boletim nº 12, 10 de maio de 1926 (na Semana Santa o povo deixa as igrejas às moscas e lota os teatros e circos de cavalinhos para assistir A Paixão de Cristo)
Num segundo instante, a coleção foi fonte valiosa para o levantamento da história do Circo Nerino, pois através da sua coluna “Situação presente dos circos associados” pude acompanhar o deslocamento do Circo Nerino entre 1925 e 1927.
Devido ao processo avançado de deterioração da coleção não pude atender às solicitações de consulta, reprodução, de outros pesquisadores. Exceção feita apenas a Ermínia Silva, com quem dirijo o site www.pindoramacircus.com.br, que consultou à coleção na elaboração de sua tese de doutorado em história “As múltiplas linguagens na teatralidade circense. Benjamim de Oliveira e o circo teatro no Brasil no final do século XIX e início do XX”. E se assim fi-lo não foi porque qui-lo, como o Jânio Quadros, mas porque a cada manuseada, a coleção se esfarinhava. Teve gente que não entendeu, O Kid, José Vitor Galvão, por exemplo, chegou a ficar de mal comigo. Mas agora já ficou de bem. Ainda bem. Até publicou uma matéria sobre o livro Circo Nerino no jornal Arte & Diversões. Aproveito o espaço para lhe mandar um abraço.
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Publicado por admin em 26 Abr 2007 | sob: artistas circenses, circo, circo-teatro, história
A coleção Boletim Mensal da Federação Circense foi constituída por Francisco Colman, que eu vim a conhecer no ano de 1979, na Academia Piolin, que funcionava então debaixo das arquibancadas do estádio do Pacaembu, em São Paulo, SP, onde eu era aluna, e ele, o diretor. Eu estava então com 20 anos, e ele, chegando aos 80.
Francisco Colman gostava de contar histórias de glória do seu passado. Como artista orgulhava-se principalmente do número de barra, em que executava o temível “casse-couz”, e da adaptação que realizara do filme “O Signal da Cruz” para o circo-teatro. Vamos encontrá-lo no livro Circo Nerino, de minha autoria com Roger Avanzi, na década de 1920, tanto nas fotografias como nas lembranças de seu Roger, já que seu Colman foi o seu primeiro professor de alfabetização. No Boletim da Federação Circense ele é citado algumas vezes como o secretário do Circo Nerino. Tempos depois, em 1936 lançou a Scena – Revista Circense, Órgão Oficial do Circo Theatro Romano, que a partir de 1938 passou a ser independente. (É nessa coleção que encontrei a única referência sobre o final da Federação Circense, no ano de 1938.) No final da década de 1950, Francisco Colman foi diretor e redator da revista Máscaras – Órgão Oficial do Sindicato dos Atores Teatrais , Cenógrafos e Cenotécnicos do estado de São Paulo. E na década de 70, presidente da Associação Piolin de Artes Circenses, entidade então responsável pela Casa do Ator, em São Paulo, SP, situada na rua de mesmo nome, nº 275, Vila Olímpia, São Paulo, SP, onde hoje funciona a Faculdade Anhembi Morumbi, e pela Academia Piolin.
Seu Colmam só andava de terno. E ternos muito bem cortados. Muito elegante seu Colman, muito elegante. E nos dias de frio, ele colocava, sobre o terno, um casaco preto, de boa lã, que lhe chegava até os joelhos, e o deixava com a aparência de um lord inglês, daqueles que a gente vê nos filmes. No começo, ele aparecia freqüentemente na Academia Piolin, sempre acompanhado de seu secretário, seu Waldemar, que também só vivia de terno. Chegava sempre animado, dava palpites, aplaudia a evolução de um aluno, dava-lhe conselhos, contava feitos de sua época de glória e ria muito. Tinha problema sério de audição, quase gritávamos para falar com ele. Os professores da Academia o respeitavam muito, mas os mais gaiatos não se furtavam a fazer gozações com ele. Tinha um que falava alto o que ele queria que seu Colmam ouvisse, tipo: como vai seu Colmam? E falava baixo o que não era para ser ouvido, tipo:o senhor está caducando… Era difícil segurar o riso.
Foi em outubro de 1980, que eu passei a vê-lo com outros olhos. Estávamos na Semana da Criança, e havia sido programado um espetáculo dos alunos e professores da Academia Piolin no Circo Romano, então armado no Parque da Água Branca, em São Paulo. Minutos antes de começar o espetáculo, ele passou mal, seu coração descompassou com a emoção que sentiu ao ver o circo lotado para assistir ao espetáculo da escola que ele havia implantado, a primeira escola de circo do Brasil, sonho acalentado por várias gerações de circenses.
Ele foi levado para detrás das cortinas e ficou deitado numa cama improvisada no chão, enquanto aguardava o resgate. Nós, os alunos, não ousávamos nos aproximar dele, só os professores. A platéia reclamava o atraso: começa, começa, começa!… Enfim, o resgate chegou e levou seu Colman. Uma professora convocou uma roda, puxou uma oração, e em seguida, começamos o espetáculo. No final, chegou a boa notícia, seu Colman estava bem. Tinha sido só um susto. Um susto que mexeu profundamente comigo. Tive talvez, pela primeira vez consciência da importância histórica do momento que vivia. Passei a ver seu Colman de uma maneira diferente. Passei a respeitá-lo, não formalmente mas de verdade. Mais que isso: me afeiçoei a ele.
Foi com seu Colman que eu descobri que diretor/dirigente/secretário de circo, pelo menos os da antiga, têm sempre a carteira recheada de notas. Então, eu e minhas colegas que éramos extremamente duras na época, sempre que seu Colmam aparecia, arrumávamos um jeito de levá-lo até o camarim. Lá dentro, fazíamos-lhe cócegas e falávamos: seu Colman, arruma um dinheirinho pra gente! Ele ria… “Essas meninas!!!” Depois, sacava sua carteira e, rindo, dava uma nota para cada uma de nós.
Ele sempre ressaltava a importância do diploma que nós receberíamos no final do curso – que correspondia a montagem de um número. Na época, eu não dava a menor importância para o diploma que ele tanto falava. Finalizei o curso com a montagem e apresentação de um número de malabares e equilibrismo – eu, o Leo, e o Breno Moroni. Nós jogávamos claves, argolas. Trocávamos, jogávamos juntos, fazíamos roubadinha. O Leo jogava chapéus de palha para a platéia que voltavam para suas mãos como bumerangues, e no final, eu subia no monociclo, dava uma voltinha, parava num ponto do picadeiro e, de cima do monociclo, recebia os pratos que o Leo e o Breno me arremessavam em ritmo crescente. E tinha a tal das caçapas… Tinha até esquecido. Meu inferno!!! Amarrava um cinto de couro na cintura no qual estavam presas 3 caçapas, duas na frente – uma do lado esquerdo e outra do direito - , e uma atrás , no centro, na linha da coluna. A minha façanha consistia em encaçapar as três bolas, primeiro as duas da frente, e no final, a de trás. Como eu ensaiei esse número… O Jota, Ubirajara Fernandes, instrutor, diretor e tirano absoluto do número, e também construtor dos aparelhos, fez questão de fazer a boca da caçapa pouca coisa maior que a bola. Isto, dizia ele, para que eu chegasse à precisão absoluta. Muitos faziam esse número mais com a boca da caçapa maior, daquele tamanho eu seria a primeira. Então, geralmente uma das bolas batia no aro da caçapa e pulava pra fora.
No dia da apresentação, não consegui encaçapar a bola de trás. Tentei uma, duas, três. Aí o Breno, pegou a bola e ele mesmo a colocou na caçapa. Que tristeza! Conclusão: desisti. Hoje, não chego nem perto de sinuca.
Quanto ao diploma, esqueci completamente. Mas em 1985, quando fundei a Escola Picolino de Artes do Circo, em Salvador, BA, achei importante tê-lo em mãos. No ano seguinte, passando por São Paulo, fui a “Casa do Ator”, procurar seu Colman, pedir-lhe que me desse o meu canudo de papel.
A Casa do Ator não era apenas uma casa, eram várias. Tinha uma casa central, e outras casas, inclusive uma edícula comprida, uma capela, um jardim e acho que mais uma pequena casa no fundo do terreno. Entre os apartamentos situados na edícula, esses com quarto e banheiro, e nas outras casas, acredito que havia uma média de uns 25. Muitas vezes, a Academia Piolin ensaiou no quintal da Casa do Ator, no início da década de 1980, e já na época, a maioria de seus apartamentos estavam vazios. Eu gostava muito de entrar neles e fuçar as coisas que lá estavam. Lembro de figurinos, mobiliário e aparelhos de consultório médico e dentário. Fora da Academia, muitos diziam que seu Colman havia usurpado a Casa do Ator, patrimônio do Sindicato dos Artistas de São Paulo. Nada posso afirmar, essa história precisa ser investigada antes de ser julgada. Me restrinjo a relatar o que vivi.
Cheguei na Casa do Ator, em busca do meu diploma de equilibrista e malabarista, numa manhã de janeiro de 1986, por volta das 10h00. Seu Colman, começava o dia. Mal o reconheci. Nem terno usava. Morava na casa escritório. Lugar amplo, mas nada aconchegante. Assim que entrei, senti cheiro forte de corpo dormido, remédio, urina. Havia uma cama de solteiro encostada à parede, escrivaninha, e o que é mais presente na retina da minha memória, armários de vidro usados nos consultórios médicos e dentários, mas que no caso guardavam objetos do dia a dia: caneca, tinteiro, dentadura.
Num fogareiro elétrico, de uma boca só, ele cozinhava um ovo que quebrara durante o cozimento, espalhando a clara na água fervente. Depois de comer a gema e o que conseguira pescar da clara, pude então explicar o motivo da minha visita: o tal diploma. Ele então pegou um pedaço de papel escreveu de próprio punho, e depois, sem a menor cerimônia, sem mesmo apertar minha mão, me passou o diploma que tanto me prometera.
Fui ler o que ele tinha escrito, era alguma coisa como: declarou que Verônica Tamaoki se formou na Academia Piolin… No final, a data: dia tal de janeiro de 1886.
Eu disse: seu Colman, nós estamos em 1986!!! Ele não compreendeu. Gritei. Ele então pegou a caneta e no lugar do primeiro 8 escreveu 9.
Antes de ir embora, fui até a casa avarandada, procurar seu Waldemar. Não tinha ninguém. Da sala, dei uma espiada no corredor. Todas as portas estavam fechadas. Saí da casa central, passei pelo quintal, e entrei na capela.
- Meu Deus, o que aconteceu? Porque essa casa vazia? Artistas não envelhecem, não adoecem, não ficam desamparados?
Retornei a Casa do Ator, em 1991/1992. Quem me abriu as portas foi seu Waldemar, seu Colman já havia falecido. Seu Waldemar, que sempre foi muito gentil, e a quem eu também me afeiçoei, permitiu que eu consultasse o acervo de seu Colman. Nesse dia, encontrei a última moradora da Casa dos Atores, a então octagenária Geni. Filha dos russos Ivan e Tâmara Rundade, especialistas em arte eqüestre – estilo cossaco, e que se casou com Guido, o italiano que introduziu o Globo da Morte no Brasil.Conversamos. Ela lamentou ter perdido seu álbum de fotografias. E me contou, com os olhos cheios d’água, que um dia levara seu álbum para mostrar para uns amigos, e que na volta o esquecera no ônibus. Nunca mais o encontrou.
Á véspera do novo proprietário da Casa do Ator, a faculdade Anhembi - Morumbi tomar posse do imóvel, seu Waldemar, acredito que percebendo que tudo ia virar pó, me autorizou a levar o que eu achasse importante. Se fosse hoje, teria encostado um caminhãozinho, mas na época, levei o que coube num táxi. E entre as coisas que separei, trouxe comigo a coleção do Boletim Mensal da Federação Circense. Foi assim que ela chegou em minhas mãos.

Francisco Colman - 1979 ou 1980
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