UNIDOS SEREMOS FORTES
A coleção - Parte I
Publicado por admin em 26 Abr 2007 | sob: artistas circenses, circo, circo-teatro, história
A coleção Boletim Mensal da Federação Circense foi constituída por Francisco Colman, que eu vim a conhecer no ano de 1979, na Academia Piolin, que funcionava então debaixo das arquibancadas do estádio do Pacaembu, em São Paulo, SP, onde eu era aluna, e ele, o diretor. Eu estava então com 20 anos, e ele, chegando aos 80.
Francisco Colman gostava de contar histórias de glória do seu passado. Como artista orgulhava-se principalmente do número de barra, em que executava o temível “casse-couz”, e da adaptação que realizara do filme “O Signal da Cruz” para o circo-teatro. Vamos encontrá-lo no livro Circo Nerino, de minha autoria com Roger Avanzi, na década de 1920, tanto nas fotografias como nas lembranças de seu Roger, já que seu Colman foi o seu primeiro professor de alfabetização. No Boletim da Federação Circense ele é citado algumas vezes como o secretário do Circo Nerino. Tempos depois, em 1936 lançou a Scena – Revista Circense, Órgão Oficial do Circo Theatro Romano, que a partir de 1938 passou a ser independente. (É nessa coleção que encontrei a única referência sobre o final da Federação Circense, no ano de 1938.) No final da década de 1950, Francisco Colman foi diretor e redator da revista Máscaras – Órgão Oficial do Sindicato dos Atores Teatrais , Cenógrafos e Cenotécnicos do estado de São Paulo. E na década de 70, presidente da Associação Piolin de Artes Circenses, entidade então responsável pela Casa do Ator, em São Paulo, SP, situada na rua de mesmo nome, nº 275, Vila Olímpia, São Paulo, SP, onde hoje funciona a Faculdade Anhembi Morumbi, e pela Academia Piolin.
Seu Colmam só andava de terno. E ternos muito bem cortados. Muito elegante seu Colman, muito elegante. E nos dias de frio, ele colocava, sobre o terno, um casaco preto, de boa lã, que lhe chegava até os joelhos, e o deixava com a aparência de um lord inglês, daqueles que a gente vê nos filmes. No começo, ele aparecia freqüentemente na Academia Piolin, sempre acompanhado de seu secretário, seu Waldemar, que também só vivia de terno. Chegava sempre animado, dava palpites, aplaudia a evolução de um aluno, dava-lhe conselhos, contava feitos de sua época de glória e ria muito. Tinha problema sério de audição, quase gritávamos para falar com ele. Os professores da Academia o respeitavam muito, mas os mais gaiatos não se furtavam a fazer gozações com ele. Tinha um que falava alto o que ele queria que seu Colmam ouvisse, tipo: como vai seu Colmam? E falava baixo o que não era para ser ouvido, tipo:o senhor está caducando… Era difícil segurar o riso.
Foi em outubro de 1980, que eu passei a vê-lo com outros olhos. Estávamos na Semana da Criança, e havia sido programado um espetáculo dos alunos e professores da Academia Piolin no Circo Romano, então armado no Parque da Água Branca, em São Paulo. Minutos antes de começar o espetáculo, ele passou mal, seu coração descompassou com a emoção que sentiu ao ver o circo lotado para assistir ao espetáculo da escola que ele havia implantado, a primeira escola de circo do Brasil, sonho acalentado por várias gerações de circenses.
Ele foi levado para detrás das cortinas e ficou deitado numa cama improvisada no chão, enquanto aguardava o resgate. Nós, os alunos, não ousávamos nos aproximar dele, só os professores. A platéia reclamava o atraso: começa, começa, começa!… Enfim, o resgate chegou e levou seu Colman. Uma professora convocou uma roda, puxou uma oração, e em seguida, começamos o espetáculo. No final, chegou a boa notícia, seu Colman estava bem. Tinha sido só um susto. Um susto que mexeu profundamente comigo. Tive talvez, pela primeira vez consciência da importância histórica do momento que vivia. Passei a ver seu Colman de uma maneira diferente. Passei a respeitá-lo, não formalmente mas de verdade. Mais que isso: me afeiçoei a ele.
Foi com seu Colman que eu descobri que diretor/dirigente/secretário de circo, pelo menos os da antiga, têm sempre a carteira recheada de notas. Então, eu e minhas colegas que éramos extremamente duras na época, sempre que seu Colmam aparecia, arrumávamos um jeito de levá-lo até o camarim. Lá dentro, fazíamos-lhe cócegas e falávamos: seu Colman, arruma um dinheirinho pra gente! Ele ria… “Essas meninas!!!” Depois, sacava sua carteira e, rindo, dava uma nota para cada uma de nós.
Ele sempre ressaltava a importância do diploma que nós receberíamos no final do curso – que correspondia a montagem de um número. Na época, eu não dava a menor importância para o diploma que ele tanto falava. Finalizei o curso com a montagem e apresentação de um número de malabares e equilibrismo – eu, o Leo, e o Breno Moroni. Nós jogávamos claves, argolas. Trocávamos, jogávamos juntos, fazíamos roubadinha. O Leo jogava chapéus de palha para a platéia que voltavam para suas mãos como bumerangues, e no final, eu subia no monociclo, dava uma voltinha, parava num ponto do picadeiro e, de cima do monociclo, recebia os pratos que o Leo e o Breno me arremessavam em ritmo crescente. E tinha a tal das caçapas… Tinha até esquecido. Meu inferno!!! Amarrava um cinto de couro na cintura no qual estavam presas 3 caçapas, duas na frente – uma do lado esquerdo e outra do direito - , e uma atrás , no centro, na linha da coluna. A minha façanha consistia em encaçapar as três bolas, primeiro as duas da frente, e no final, a de trás. Como eu ensaiei esse número… O Jota, Ubirajara Fernandes, instrutor, diretor e tirano absoluto do número, e também construtor dos aparelhos, fez questão de fazer a boca da caçapa pouca coisa maior que a bola. Isto, dizia ele, para que eu chegasse à precisão absoluta. Muitos faziam esse número mais com a boca da caçapa maior, daquele tamanho eu seria a primeira. Então, geralmente uma das bolas batia no aro da caçapa e pulava pra fora.
No dia da apresentação, não consegui encaçapar a bola de trás. Tentei uma, duas, três. Aí o Breno, pegou a bola e ele mesmo a colocou na caçapa. Que tristeza! Conclusão: desisti. Hoje, não chego nem perto de sinuca.
Quanto ao diploma, esqueci completamente. Mas em 1985, quando fundei a Escola Picolino de Artes do Circo, em Salvador, BA, achei importante tê-lo em mãos. No ano seguinte, passando por São Paulo, fui a “Casa do Ator”, procurar seu Colman, pedir-lhe que me desse o meu canudo de papel.
A Casa do Ator não era apenas uma casa, eram várias. Tinha uma casa central, e outras casas, inclusive uma edícula comprida, uma capela, um jardim e acho que mais uma pequena casa no fundo do terreno. Entre os apartamentos situados na edícula, esses com quarto e banheiro, e nas outras casas, acredito que havia uma média de uns 25. Muitas vezes, a Academia Piolin ensaiou no quintal da Casa do Ator, no início da década de 1980, e já na época, a maioria de seus apartamentos estavam vazios. Eu gostava muito de entrar neles e fuçar as coisas que lá estavam. Lembro de figurinos, mobiliário e aparelhos de consultório médico e dentário. Fora da Academia, muitos diziam que seu Colman havia usurpado a Casa do Ator, patrimônio do Sindicato dos Artistas de São Paulo. Nada posso afirmar, essa história precisa ser investigada antes de ser julgada. Me restrinjo a relatar o que vivi.
Cheguei na Casa do Ator, em busca do meu diploma de equilibrista e malabarista, numa manhã de janeiro de 1986, por volta das 10h00. Seu Colman, começava o dia. Mal o reconheci. Nem terno usava. Morava na casa escritório. Lugar amplo, mas nada aconchegante. Assim que entrei, senti cheiro forte de corpo dormido, remédio, urina. Havia uma cama de solteiro encostada à parede, escrivaninha, e o que é mais presente na retina da minha memória, armários de vidro usados nos consultórios médicos e dentários, mas que no caso guardavam objetos do dia a dia: caneca, tinteiro, dentadura.
Num fogareiro elétrico, de uma boca só, ele cozinhava um ovo que quebrara durante o cozimento, espalhando a clara na água fervente. Depois de comer a gema e o que conseguira pescar da clara, pude então explicar o motivo da minha visita: o tal diploma. Ele então pegou um pedaço de papel escreveu de próprio punho, e depois, sem a menor cerimônia, sem mesmo apertar minha mão, me passou o diploma que tanto me prometera.
Fui ler o que ele tinha escrito, era alguma coisa como: declarou que Verônica Tamaoki se formou na Academia Piolin… No final, a data: dia tal de janeiro de 1886.
Eu disse: seu Colman, nós estamos em 1986!!! Ele não compreendeu. Gritei. Ele então pegou a caneta e no lugar do primeiro 8 escreveu 9.
Antes de ir embora, fui até a casa avarandada, procurar seu Waldemar. Não tinha ninguém. Da sala, dei uma espiada no corredor. Todas as portas estavam fechadas. Saí da casa central, passei pelo quintal, e entrei na capela.
- Meu Deus, o que aconteceu? Porque essa casa vazia? Artistas não envelhecem, não adoecem, não ficam desamparados?
Retornei a Casa do Ator, em 1991/1992. Quem me abriu as portas foi seu Waldemar, seu Colman já havia falecido. Seu Waldemar, que sempre foi muito gentil, e a quem eu também me afeiçoei, permitiu que eu consultasse o acervo de seu Colman. Nesse dia, encontrei a última moradora da Casa dos Atores, a então octagenária Geni. Filha dos russos Ivan e Tâmara Rundade, especialistas em arte eqüestre – estilo cossaco, e que se casou com Guido, o italiano que introduziu o Globo da Morte no Brasil.Conversamos. Ela lamentou ter perdido seu álbum de fotografias. E me contou, com os olhos cheios d’água, que um dia levara seu álbum para mostrar para uns amigos, e que na volta o esquecera no ônibus. Nunca mais o encontrou.
Á véspera do novo proprietário da Casa do Ator, a faculdade Anhembi - Morumbi tomar posse do imóvel, seu Waldemar, acredito que percebendo que tudo ia virar pó, me autorizou a levar o que eu achasse importante. Se fosse hoje, teria encostado um caminhãozinho, mas na época, levei o que coube num táxi. E entre as coisas que separei, trouxe comigo a coleção do Boletim Mensal da Federação Circense. Foi assim que ela chegou em minhas mãos.

Francisco Colman - 1979 ou 1980
Projeto realizado com Recursos Federais - Ministério da Cultura
FUNARTE - Fundação Nacional de Arte/Centro de Artes Cênicas
Apoio:
DPH-PMSP - Departamento do Patrimônio Histórico/Prefeitura Municipal de S. Paulo
ASFACI - Associação de Famílias e Artistas Circenses
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queridíssima, que coisa mais linda e tudo o que vc escreve…. essa paixão, esse amor pelas pessoas (cada uma delas, cada um desses loucos adoráveis e terríveis..) é que faz toda a diferença…
claro que além de tudo vc é inteligente, trabalha feito uma louca e sabe o que diz. Mas é esse comprometimento com as pessoas que fizeram e fazem o circo no Brasil que faz toda a diferença!
beijos